Para esse texto, recomendo que ouçam “Ain’t got no, I got life” da Nina Simone.
E eu pensava que seria só mais um pé molhado. Só mais uma onda pulada. Só mais um pouco de areia desnecessária me roçando a perna. De primeiro, a vista se encanta. Mas só se entende a magia quando se sente e, principalmente, quando se entrega.
A areia grossa machucava os pés que timidamente iam em direção ao mar. Subiu o primeiro arrepio da chicoteada que o mar gelado deu nas pernas da quebra da onda. A inspiração que se seguiu, foi inevitável. O corpo precisava daquilo para se acostumar àquela sensação.
Depois que se experimenta uma vez, quer se sentir mais. Sentir os ossos berrando a sensação de vivencia que se tem pelo gelo das águas. O vento te chama para caminhar. A areia esfoliava os pés marcados de caminhadas existências desnecessárias. O mar gelado purificava o ser.
Ser. Ser que foi levado pelo mar. Ser que se perdeu no infinito do horizonte, onde o mar se misturava ao céu. E então, tudo começou a se fundir. A areia machucando os pés, os ossos berrando, as gaivotas voando junto a ti e o mar engolindo o Sol. Dava para sentir o Sol sendo trazido pelo mar.
E a gente¿ A gente faz parte de tudo isso. Ao invés de abraçarmos o mundo, o colocamos em nossos ombros. A gente é tudo e nada. A gente faz parte, mas quer deixar tudo à parte. Porque nossos problemas cotidianos, que parecem impossíveis de se resolver e necessários de feitos dramáticos para tentar se provar que eles repercutam em sentimentos dentro nós, perdem todo o sentido diante daquilo. Você se sente babaca por se importar com coisas tão pequenas, vazias e fúteis. Você percebe que pode se sentir vivo de outras maneiras. Maneiras que valem a pena, maneiras que fazem algum sentido.
A tênua linha solar, que separava o céu do mar, estava desaparecendo pouco a pouco. O ser ia sendo trazido de volta pelo mar. O ser, então, ganhava a conotação do oceano. O ser se fundira ao Pacífico.
Por Beatriz da Cruz e Nunes de Souza, às 01:12 da manhã, horário Chileno.
Muito lindo !
ResponderExcluir¡Bellísimo testimonio, niña!
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